C12H22O11: AÇÚCAR E ESCRAVIDÃO, ASSIM NO PRESENTE COMO NO PASSADO[1] Por Jelson Oliveira Acabo de ver o filme Alexandre, de Oliver Stone. E me lembrei da história do açúcar. Por quê? Ora, no final quase cansativo, depois de muitas batalhas e longos monólogos, o longametragem conta a chegada do herói à Índia, com impressionantes imagens de seu último prélio, protagonizado por seu cavalo preto chamado Bucéfalo (!) e um grande elefante indiano. Bem... o açúcar, pelo que se conta na História da comida, teria sua origem nestas terras. Desconhecido dos gregos até então, foi pelas mãos de um soldado de Alexandre, chamado Niarchos, enviado para a conquista da Índia Oriental por volta de 325 a. C. que o caldo da cana entrou para a literatura ocidental. Narra o almirante alexandrino que as populações nativas do Vale do Indo bebiam o suco da cana fermentado. Com a alcunha de “sal indiano”, passou a ser importado a preços elevadíssimos pelos gregos e romanos. Também chamado de “mel sem abelhas”, ou “mel manufaturado” ou ainda de “mel de cana”, não é difícil imaginar como o suco da cana impressionara os conquistadores da época. Coube a um escritor romano o registro latino do nome saccharum (donde sacarose). Tudo narrado no interessante livro do escritor norte-americano William Dufty, Sugar Blues. Segundo Dufty, teria sido pelas mãos de professores e estudantes da Escola de Medicina e Farmacologia da Universidade de Djondisapour, na Pérsia, por volta do ano 600 d. C. que o suco da cana passou a ser processado em açúcar, a fim de que fosse estocado sem que fermentasse, possibilitando o transporte e o comércio. A partir daí começou a ser plantado também pelos persas e importado pela China como uma preciosidade. Mais tarde, com o fim do império persa, a “receita” do processamento do açúcar (tratado como medicamento) passou para as mãos do Islã e teria sido levado à Meca. Pouco tempo depois, os árabes teriam assumido o controle de todo o negócio, dada a expansão das suas conquistas: consta que os soldados árabes levavam consigo mudas de cana-de-açúcar para serem cultivadas. Alguns historiadores chegam a afirmar que a dependência (o termo é usado de propósito pelo autor de Sugar Blues) do açúcar pelos guerreiros teria lhes tirado a agressividade. Esse teria sido o primeiro alarme científico contra os efeitos do açúcar sobre o corpo humano. Foi assim que o açúcar se transformara numa importante arma política. Diz-se que os cristãos, durante as Cruzadas, desenvolveram um gosto todo especial pelo condimento de tal forma que muitos se lançavam àquelas terras simplesmente para receber suas doses do doce suco. Era também com açúcar que se subornavam os embaixadores europeus no Egito. Numa passagem interessante, Dufty relata o interesse do Papa Clemente V, em 1306, pela tomada das terras do Sultão em benefício do suprimento da cristandade com o açúcar, abrindo definitivamente o ocidente para o uso do acepipe indiano e dando início a oito séculos de escravidão, genocídio, devastação ambiental e crime organizado em nome do mercado açucareiro. Graças a Niarchos, o almirante de Alexandre e os seus sucessores. No seu livro A História do Açúcar, o historiador inglês Noel Deer afirma que o trabalho escravo deve ter atingido 20 milhões de africanos, dois terços dos quais usados como mão-de-obra na produção do açúcar, numa corrida na qual os portugueses saíram na frente, já que os árabes haviam introduzido o ingrediente durante a ocupação da Península Ibérica. Sem encontrar terras na África para produção do açúcar (como era seu objetivo inicial), Dom Henrique, por volta de 1444, teria descoberto muitos negros para trabalho forçado em fazendas de cana. Abençoado pelo Sumo Pontífice da época, o tráfico negreiro fomentou a expansão do Império Português, a começar pelas ilhas da Madeira e Canárias e, óbvio, pelo Brasil. Açúcar e escravidão foram, desde o início, ingredientes deste progresso, fazendo com que os portugueses detivessem por volta do século XV o monopólio do comércio do açúcar na Europa, seguido pela Espanha, que já tinha suas “mudinhas” de cana, deixadas pelos mouros após a sua expulsão do território espanhol. Colombo, em sua segunda viagem ao Novo Mundo, teria trazido algumas mudas de cana-de-açúcar e iniciado uma campanha pelo cultivo das mesmas com mão-de-obra escrava, o que veio a ocorrer em 1510, com o Rei Fernão de Aragão. Logo mais tarde, em 1532, foi fundado por Matim Afonso de Souza o primeiro engenho de açúcar no Brasil. Com uma refinaria de açúcar fundada em Antuérpia (hoje a segunda maior cidade da Bélgica e um dos maiores portos do mundo, nas margens do rio Escalda) os holandeses nesta época recebiam o açúcar bruto produzido pelos portugueses, o processavam e exportavam para Alemanha, Inglaterra e os chamados Estados Bálticos. As taxas sobre este mercado teriam enriquecido o Rei Carlos V, da Espanha e o açúcar se transformara no produto que mais influenciara a história ocidental. Até hoje, como vemos e sentimos. Mas a França também não ficou de fora deste lucrativo mercado consumidor. Consta que em 1700 o açúcar refinado era o principal produto de exportação francês, persistindo até a época das guerras napoleônicas, quando as refinarias francesas foram isoladas pelo bloqueio inglês, resultando numa elevação do preço do açúcar e dos bombons. Em 1812 um cientista francês teria inventado um meio de transformar a beterrava babilônica num tipo de açúcar e Napoleão Bonaparte ordenou que toda a França fosse plantada com o vegetal, com amplo apoio para estudos, pesquisa e construção de refinarias. Mais tarde a beterraba fora levada pelos quakers (religiosos de uma seita cristã fundamentalista criada pelo inglês George Fox, em 1650) para a Inglaterra, mas a indústria da cana considerou isso uma subversão e os religiosos foram punidos. Com o declínio de Portugal e Espanha, foi a vez da Inglaterra dominar o mercado: mesmo hesitando de início, não tardou para que a Rainha Elisabeth I conquistasse para Inglaterra, em 1588, o monopólio do tráfico de escravos. Nas terras americanas, a produção da cana vai de vento em popa, com o extermínio da população nativa e a introdução da mão-de-obra escrava negra. Malgrado isso, já se sentia a resistência dos negros que fugiam das fazendas para os quilombos e começavam uma luta pelos seus direitos e contra o mercado do açúcar muito antes do que muitos imaginam. Impulsionados pelo açúcar, mas também pelo comércio do rum e do melado, o comércio açucareiro rendia infinitos lucros para a Inglaterra por volta de 1660 até 1880, período no qual assistimos a uma tentativa das colônias de comercializar livremente o açúcar, o que fora impedido pela Inglaterra, que não queria perder o lucrativo monopólio. Desde então, o açúcar que chegava à Europa vinha manchado com o sangue da escravidão. E isso já vinha sendo denunciado desde o século XVIII. Todas as fortunas e os progressos de plantadores, mercadores e traficantes, estavam legitimadas na exploração dos escravos do Novo Mundo. Até que em 1792 foi formada, segundo Dufty, a primeira Sociedade Anti-sacarita do mundo. As Companhias inglesas do Oriente passaram, então, a usar o açúcar para promover o ópio, outra substância em moda na época. “O açúcar das Índias Orientais não é produzido por escravos”, era o seu lema publicitário, fazendo as contas de quantos negros eram mortos com o consumo semanal de açúcar de uma família européia (triste coincidência com a pretendida campanha contra o açúcar brasileiro e em favor do açúcar europeu!). Na lição da história, o lucrativo comércio do açúcar não consegue sobreviver sem a mão-de-obra escrava. E ontem, como hoje, ele continua fazendo suas vítimas. Como dependente do açúcar a Inglaterra teve de se tornar também dependente da escravidão. Como dependente do agronegócio da cana, nossos governos têm de se tornar também dependentes do trabalho escravo e da violação das leis trabalhistas. Não existe uma coisa sem a outra. Popularizado através do rebaixamento do preço, o açúcar se tornara cada vez mais necessário nas mesas dos trabalhadores: em 100 anos (de 1700 a 1800) o consumo de açúcar foi multiplicado por 8 na Inglaterra. Os franceses foram os primeiros a abolir a escravidão em lei, em 1807, sendo que a Inglaterra só o fez em 1833. Foi o começo do declínio do grande mercado europeu do açúcar, que veio a ser conduzido a partir do século XIX pelos Estados Unidos, com a invenção do açúcar branco, refinado, como o temos hoje – conforme nos explica Dufty, isso só foi possível depois da invenção da panela de pressão, do carvão feito a partir de ossos de animais e do motor a vapor. Os americanos fizeram de Cuba um grande canavial onde plantavam a matéria-prima para suas refinarias “de última geração”: 90% do açúcar consumido nos EUA nesta época vinham da Ilha cubana e o mercado americano cresceu astronomicamente, patrocinado por uma grande campanha que introduzira definitivamente a antiga especiaria nas mesas dos norte-americanos comuns e da maior parte da população mundial. Como podemos sentir nesta rápida reunião de informações, a história do açúcar esconde (ou revela) uma tragédia onde o lucro e a ostentação de alguns foi patrocinada pela desgraça, a miséria e a morte de milhares de seres humanos. Em nome da iguaria branca, terras vem sendo devastadas ao redor do mundo, rios têm sido apagados do mapa para dar lugar às longas extensões da cana verde, as águas todas poluídas com a pulverização das lavouras... e o mais triste: milhares de seres humanos escravizados sob o sol escaldante e o picumã uniforme que entristece seus olhares e sobretudo seu espírito, aplacado pelo cansaço das longas e injustas jornadas de trabalho. Hoje, como ontem, continuamos pagando o mesmo preço. Até quando? Para encerrar, me lembrei da música Zumbi, do Jorge BenJor: “Aqui onde estão os homens, de um lado cana-de-açúcar, de outro lado o cafezal. Ao centro os senhores sentados, vendo a colheita do algodão branco, sendo colhido por mãos negras”. E seu refrão efusivo: “Eu quero ver, quando Zumbi chegar, o que vai acontecer”. Que o espírito de Zumbi, pleno de liberdade e de rebeldia, possa nos inspirar nesta hora de resistência!
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